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Setembro 11, 2005
Setembro 5, 2005
HOJE URGE HOJE
Prevejo dias difíceis. Frio na barriga. Vontade de brigar pela mínima condição de humanidade. Cigarro, voz e ansiedade. Um silêncio. Nada de dor. Só pulsação. Incômoda porque nunca sentida. Sem vento. Parecerá dor às vezes. Só encarnas distorcidas. Quebra-cabeças com peças à deriva. Como aquelas que meu irmão jogava pela janela quando era criança.
Prevejo dias de silêncio dentro da minha fala constante. Sorrisos vazios de uma felicidade distante. Mas que se esforçarão para sorrir. Com balas de laranja. Trilhas sonoras que me farão viver memória. Deuses correrão o rascunho de minha história. Serão dias quentes mas os verei cinza só por alguns dias. Pensarei em anjos e forças protetoras. Pedirei ajuda. Sentirei a presença de alguém que não vejo. Tentarei ver e esquecerei de abrir os olhos. Tentarei esquecer e a lembrança cobrará a demora. Toda confusão quando eu pegar o telefone para falar com mamãe. Vou ouvir de novo o acorde único e destoante. Eu pedirei força. E sentirei o vento. E já sei que tenho o bastante. Alguma eletricidade vai passar entre meus braços e reconhecerei quem me chama. Alguma vontade me será forte e não conseguirei dormir. Precisarei das drogas que até hoje precisei e consegui. Beberei sem o corpo que antes as revestia. Depois de todo o sonho, chegará o dia em que vou sorrir por sorrir para sorrir como agora. Enquanto o tempo amalgama o espaço e tudo existe neste momento com a calma respiração simplesmente calma. Um toque de céu e caridade. Um abraço. O momento de doação. Sem lembranças de julgamentos injustos, olhares difusos, fortalezas tão fortes que escondem outras cabeças mesquinhas. Dançarei a racionalidade embebida em toda pulsão que me fará acordar para sentir. Lendo Bernard Shaw e Monteiro Lobato para aquelas crianças. Rasgando alguns outros livros, como este ao meu lado. E lhes dando algumas páginas para que elas possam me reconstruir. Olharei para o horizonte sentindo o sol queimando no rosto, o amarelo gritante, o ego descolando da retina, o vermelho pulsante, o tal sorriso que me invade agora, presente de mãos dadas a minha calma para poder voltar a dormir depois de tanto amanhã. Agosto 15, 2005
AMPULHETA
Se os dias forem estranhos, toma tua forma de céu e transcreva aqueles versos que ninguém ainda leu. Vira a criança que semana passada você criou. Chora, tira a roupa. Deita aqui. De tangente soslaio como os seus olhos fazem quando não acreditam em mim.
Marca um ponto no horizonte e joga o dardo. Vota nulo e escreva o conto que eu te li. Chora a mágoa, toma a água, espera o efeito passar. Toma conta de mim. A criança que semana passada você criou. Pensa que é a última vez. Subtraia e multiplique seus dedos, entenda meus medos, sorria e coma bem. Quando os dias forem estranhos, desafia a morte. Sonha que o paraíso comprou mais terreno e te deu. Meu corpo cresceu. Acorda e vem disputar nossa última batalha. Já posso viajar sozinha. Espera pela pergunta antes da minha resposta mesquinha. Não olha pra trás. O destino passou. Toma um gole do que é meu. Lembra que eu vi as mentiras bonitas. Pensei e fiquei com nojo e parei de respirar. Falei pouco e não quis escutar. Nem discutir. E na terceira pessoa tudo parecia mesmo esquisito. Contrário, diferente daquele que proclamava tratados. Todos falsos. E o mentiroso ficou com nariz de palhaço e não caiu por um triz. Mas a máscara derreteu. E ficou só o corpo amorfo e descomunal, que pena a decadência mas continua ali. Não deixa os dias ficarem estranhos assim. Faz velocidade do meu amanhecer. Olha o relativismo que compõe as meninas de mim. Ana, Joana, Viridiana, Catarina. Que rimavam enquanto pulavam a amarelinha pintada no chão. Não esqueça meu cigarro e minha xícara de chá. Toda a minha freqüente alucinação. Me proteja da agressão. Do palhaço, do mago, do infeliz. Da dor de garganta, da minha pretensão. Agosto 8, 2005
OSTINATO E PORTAMENTO
Se me fosse permitido eu poderia passar um dia inteiro ouvindo a mesma música, fumando o mesmo cigarro. Uma jarra de café. Ou de chá, que venho tentando usar para substituir a cafeína. Poderia parar e ficar pensando durante todo o dia como é fácil e difícil viver. Deixar o vento cantar repetidamente a cada vez que eu colocasse a música para tocar de novo. Minha cabeça funcionaria em compassos. Geralmente quatro por quatro. Geralmente em ré menor.
Eu poderia esquecer o que acontece com o universo. Seria o centro dele. E apenas. E simples assim. E acreditaria que não há no que acreditar. Receberia notícias de alguém querido. E como resposta, diria olá, gosto de você. E simples. Assim, gostaria por gostar. Como gostaria desse barulhinho de mar que chegaria de leve como agora. Se me fosse permitido, eu seria deus e criaria um só mundo cheio de coisas boas e felizes e inocentes. Olharia o amuleto e veria tudo o que mora em cima e embaixo, se repetindo repetindo repetindo, sendo para sempre igual. Não contendo o tempo que meu espaço ainda pediria para explorar. Eu ouviria a mesma música mais de dezessete vezes, a mesma ao longo do dia. Em momentos, ela me arrepiaria. Em outros, eu quereria chorar. E me perguntaria sobre as razões das coisas. E não teria resposta. Bateria o cigarro no cinzeiro azul, e a brisa eu beberia. Engoliria seco o rasgo que me causaria a falta de crença no que é essencial e que não é exposto. O sol me exporia às queimaduras que me seriam de dentro. Se me fosse permitido, eu compraria aquela casinha feliz sozinha perto do píer. Tomaria chá querendo café, mas aos poucos me acostumaria com sua textura menos negra e seu som mais agudo. Veria que preciso de tão pouco para ter minha casa perto do píer quando a linha do horizonte fosse tão reta e o sol transpusesse minha alma ao se deitar. Entenderia como é mentira quando acredito. Saberia como é verdade quando quero. Usaria a primeira pessoa do singular sem a menor vergonha. E me permitiria não ser lida. Ouvida ou falada. Desmembraria cada fragmento contrário daquilo que se apresentou sobre pompas sérias e enfáticas. Contaria mentiras que seriam verdades de tão bonitas e agradáveis. Ouviria as vozes que um dia me beijaram e nelas eu cuspiria. Olharia e meus olhos se tornariam amarelos e entrariam dentro do que mente no outro. Devastaria a solidão que o assola. Esfregaria que eu sempre estive ali, sempre, só um pouco mais ou menos só. Corrigiria algumas palavras e faria um filme. Transformaria uniões em celebrações da verdadeira genialidade. Comeria alegrias, apagaria a luz. Fumaria outro cigarro vermelho, com minha tosse levemente prudente. Se um dia me fosse permitido, eu pularia dentro do copo com dry martini e pescaria a cereja com a boca. Molharia toda minha roupa. Abraçaria de abraço molhado todos que mergulharam também. Sairia do copo e escreveria um livro. Teria memórias encantadoras e fascinantes que valeriam a pena que se gastasse o nobre dinheiro em troca da misere arte. Sentaria no café e sentiria vontade de chorar de novo pois a música continuaria lá, e nos momentos críticos de crescendo ela sempre daria vontade de chorar. Da capo. Porque o choro é o cosmos que extravasa do pequeno universo para a grande idéia. E eu deixaria meu cosmos transbordar e dentro do meu universo inventaria o telefone e ligaria para o meu pai e diria que está tudo bem. Eu viraria uma pessoa. Pessoa. Se um dia me fosse permitido eu viraria uma pessoa. Andaria pela rua de chão cinza e céu levemente azul com rosa. Esqueceria quem era maestro no que morreu. E começaria a conhecer os novos regentes. Que então teriam também os seus cosmos transbordando. E falariam sobre ele com a mesma naturalidade de quando tiram a roupa e beijam delicadamente o seio da mulher que lhes pulsa mesmo quando não causa amor. Calariam com a mesma leveza de quando seguram o falo que lhes extravasa mais cosmos de maneira semelhante às lagrimas que limpam o copo de Martini. Eu não mais duvidaria porque não mais me importaria se um dia acontecesse. Aconteceu hoje. Eu vi o sol confusa e bebi a música em diminuendo. Julho 29, 2005
PRINCÍPIO
Às vezes existe uma força que me diz que as coisas acontecem com um propósito. Não conseguimos entender, mas sempre há um propósito. Outras vezes, a pedra que me solidifica depois de cair a última gota de resina cortante, amalgamante, não diz. Silencia de doer meus ouvidos com tanto nada. Nessas vezes, lembro que qualquer sensação, sentimento, pressentimento, emburrecimento, é nada mais do que ligações químicas, traças de sinapses e de matéria bruta, que não dão a mínima para mim e para a minha prepotência quando acredito que penso. Quantas vezes aconteceu de eu chorar e um pingo de hormônio nada metafísico me fazer lembrar que não existia dor, a não ser das concessões que o próprio corpo permite doer.
Mas teve uma vez que me lembrei de uma vida tão viva que não me parecia apenas instinto do que me era químico. Tinha vida tão viva que chorava e sorria autônoma, durante o sonho, durante o inconsciente resíduo que insistia em gritar, depois que os hormônios e as soluções de solutos e solventes já haviam me corroído. Eu queria acreditar em algum deus e queria acreditar. Puxar da palavra intuição o que ondas eletromagnéticas me faziam antecipar. Eu queria ver o grande elo. A grande idéia. O grande campo onde as criações eram concebidas e geradas numa lama de sangue e águas e éter. Do lodo, a grande idéia era eu mesma existindo naquele momento. Eu queria encontrar o complexo da vida porque eu achava que éramos muito além do que me era além na linguagem, e só por isso pensei que já merecíamos ser obra de uma entidade divina. Mas éramos tal qual a pedra ao pé do Vesúvio, tão lindo Vesúvio, mesmo quando destrói, mas não destrói, porque destruir é parte do discurso e do mundo que vive naquela pequena linguagem de onde eu venho. E éramos iguais à pedra mas sabíamos perguntar por quê numa língua que só nós decodificávamos. Não entendemos a língua da pedra, pois o que ela diz é barrado pelo limite imbecil e cheio de predicados do corpo que não deseja ouvir que somos todos iguais, querendo ser mais, e tudo isso de pensamento não passa de uma organização idiota. Somos todos idiotas, todas as vezes, sempre que lembramos e esquecemos que nascemos livres mas vivemos com o objetivo de encarnar a liberdade universal. Idiotas todas as vezes que cobiçamos, que renegamos o instinto, que desejamos monogamia, que escolhemos putaria, que lembramos de ternura cor de rosa, que lembramos de rancor simplesmente idiota. Uma pedra é uma pedra. Eu sou eu e uma pedra. E só continuo perguntando o porquê porque me é da natureza das químicas que, imperfeitas, me causam uma dor que não dói de apertar, mas aperta o estômago subindo num fio que dilacera pela nuca num bocado de água pelos olhos. Meus olhos castanhos. Felicidade também dilacera às vezes quando uma ou duas cordas daquele violão me fazem vibrar com todas as minhas moléculas junto à vibração daquelas cordas reluzentes. Nada transcende. Nada se intui. Os neurônios que mato agora com a fumaça leve que penetra em meus pulmões são os neurônios que não me ajudarão com o milagre diário da memória porque eles não estarão mais lá. Assim como os tecidos que esgarço com a mesma fumaça não me ajudarão a entender de onde vem esse sentimento de sorriso que me chega por causa de uma lembrança que tive momentos atrás. Que regenerou todos os meus conjuntos. Me flagrou respirando todo o meu infinito. E só a partir dali me senti feliz por me entender viva e por não conseguir entender o meu deus. - Current Soudtrack - Beyond the Sunrise - Belle and Sebastian Julho 11, 2005
"Listen to the girl
As she takes on half the world Moving up and so alive In her honey dripping beehive Beehive" - Jesus & Mary Chain - Fechado para balanço. Julho 4, 2005
O SORRISO
Lembra daquele dia, quando fomos presos e não havia telefone para avisar a mamãe que iríamos dormir fora? Depois daquele dia nunca fomos os mesmos. Havia um cinza pesado no ar. Algo deslocado. Se eu pudesse te dizer que tive medo naquele dia você não acreditaria. Era medo de tremer frio nas pernas e o pensamento que tremia também.
Sabe, eu nunca quis seguir moda ou construir um mundo com prosa. Eu só queria jogar amarelinha vomitando coelhinhos e deixar meu corpo descansar um pouco. Um pouquinho. Eu lembro de tantas coisas e esqueço poucas. Esqueço nomes de música, esqueço nome de ruas. Mas não esqueço das pedras no caminho. O subjetivo. Aquilo que foge à imagem e ao corpo, que traz éter de felicidades ou de incertezas. Não esqueço. Vivo. Me lembro do dia em que fomos presos. E agora eu só queria calma. Eu só queria paz para a minha cabeça que não agüenta mesquinharias. Pelo menos durante os próximos cinco minutos. O ego é a hipoteca que vem do outro. E mamãe ficou triste porque dormimos fora de casa. Não havia como ligar, você lembra? Não havia como mostrar que não havia solução. Os problemas muitas vezes não têm solução. Como no dia em que nos prenderam... Eu me arrisco a dizer que não poderia me importar menos. Porque mãe que é mãe já espera a nossa prisão. Porque a vaga que me cabe dentro de mim já está ocupada. Ocupada com tantos e tantos mais sentidos. De felicidade que explode. De tristeza quando vem e alarga os sentimentos. Estamos todos no mesmo barco. Mesmo que na caverna, mesmo que na prisão. Uma abelha que sempre costuma me trazer mel disse que eu sou uma bagunça. Eu sou caótica num mundo que flutua. Eu amo abelhas zumbindo de sorriso me contando mais sobre meu mundo. E alargando minha percepção. Me fazendo chorar no mesmo frame que minha alegria esboça um olá. Depois daquele dia, mamãe entendeu que poderíamos não voltar. Mas não era de medo que tremíamos. Após longo respiro, sorríamos o tremor de vida. Da prisão mais livre, a vontade de nela se atirar. - Current Soundtrack - Mediterranean Sundance - Paco De Lucia, Al Dimeola, John Mclaughlin Junho 21, 2005
SEMANA DE ARTE CONCEITUAL por Kátia Mello.
Existe vida além dos monitores. Cuidado. Kátia Mello vicia. Quando menos esperar, você já estará dependente dela. Junho 17, 2005
ESPOSADO
Uma passada rápida. Passada rápida de olhos. Que começa a se alongar. Absorve e já não há mais arredor. E as palavras. Palavras desnecessárias. Palavras podem ser desnecessárias? Respirar pode ser desnecessário. E o que combater? O que é preciso combater? Eu não acredito em quem detém verdades. Eu acho uma nova verdade a cada dia. E eu vejo o vazio. Eu gosto do vazio. Eu não acredito em quem não sente o próprio vazio. Eu mordo. Eu beijo a solidão. Sempre pulsa algum hiato. Só não pulsa quando não vale a pena a existência. E respirar torna-se estritamente desnecessário então. Se há uma asa que realmente voa e quer voar, não há quem consiga freá-la. Com adjetivos. Sem adjetivos. Com ou sem óculos. Imatura, prematura, criatura da criatividade constante que é ser, mesmo que escravo, pensando-se livre. O homem não nasceu para ser livre. Mas para desejar a liberdade.
Juan Rulfo é o nome do senhor que habita meus últimos vôos. Meus sonhos últimos. Mexicano, um dos escritores do não. Daqueles gênios que podem nos fazer enxergar além da possibilidade literária. A construção de tipos prevendo o fantástico. Narrativa que rouba nosso escopo, deixa-nos reféns da criatividade alheia, embebidos no éter da criação. Da inspiração depois muito trabalhada, lapidada em prisma quase irracional, não fosse a maestria do rasgar, jogar palavras. Substituir, modificar, trocar, adjetivar, para trocar de novo. Ao longo de anos. E dizer menos falando mais. A vitória da elipse. A súplica modesta por uma conversa com o leitor. Venha, mas que venha despido. Liberte-se da colcha que enodoa seus preceitos e preconceitos limitados. Alguns homens conseguem ir além. Fugir do alistamento. Não ser mais um soldado no batalhão. Os rebanhos talvez sejam necessários para a ordem darwinista. Mas que auspicioso é poder fitar aqueles que não são soldados. Muito menos generais. Aqueles que se recusam a fazer parte do exército, simples assim. E poderiam ser de alta patente com o tilintar de suas pálpebras. Mas recuam. Tornam-se ainda mais admiráveis. Exercitam diariamente a negação de qualquer ranço que venham a alimentar. Qualquer crítica embasada no rancor do crítico ou na viscosidade de julgamentos pobres e melindrosos. Qualquer despeito por não dominar a arte que, talvez, gostariam. Apenas praticam a vida que a inspiração lhes permite ousar. O cheiro do gênio é sentido de longe. Mas seu vôo fica muitas vezes vulnerável ao engodo do conservadorismo torpe daqueles que desejam liderar rebanhos, buscando numa lógica capenga e ressentida a repulsa para o ofício do que simplesmente inspira e é reproduzido. Não mecânico. Mas que pode ser lapidado porque frágil, imaturo, reflexo igualmente falho das inter-relações demasiadamente humanas. E, de sentido, sinestesia, simbiose entre razão pura e misticismo fantástico, pode nascer um equilíbrio além da lógica extrema que muitas vezes precisamos abraçar para continuar a respirar e ter o que combater. Juan Rulfo é literato de uma obra só. Alegando suas asas terem sido cortadas, parou por ali. E não competiu com a própria criação, tão universal e completa, que, num primeiro momento, limitou a poucos contemporâneos o entendimento daquele registro. Homens como Gabriel García Márquez, Julio Cortázar e Juan Carlos Onetti entenderam. Rulfo, que morreu em 1986, é hoje um dos mais estudados escritores latino-americanos, considerado o precursor do realismo fantástico. Ele, que sozinho construiu seu universo através de Pedro Páramo e El Llano en Llamas. Ele, que sozinho me desposou nas últimas duas noites. Ele, que escrevia com o insigne intuito de combater a própria solidão. - Current Soundtrack - I'll be your mirror - Velvet Underground & Nico Junho 8, 2005
QUINZE MINUTOS
Ele sorriu. Cantava e pela voz que sorria eu ouvi o sorrir. Escorria um orvalho quente quase perto. Eu pensava se aquele orvalho me traria lucidez. Eu sentia uma alma roubada desenhada a nanquim, como se meu desenho fosse o pescoço nu da minha fragilidade que desaba.
Eu batia na ponta do bastão que emancipava incerteza. E as cinzas pastosas de luz no cinzeiro vermelho. Era Gilda quem batia. E tinha pose de Gilda. Gilda batia quase na extremidade do bastão e amava e queria tragar aquele todo. Que cantava e pela voz que sorria dava para vê-lo seus olhos claros. Eu abri a janela e precisava de ar. E o céu da cidade era limpo e os olhos mais ébrios e eu sentia a expansão do meu corpo dentro da grande idéia. Eu fotografei o momento, pois a cegueira que eu não conhecia podia chegar. Eu lavava a minha roupa e alguém me chamava. Ele cantava. Alguém que passava jurou ter me visto sorrir. - Current soundtrack - Heroin - Velvet Underground Junho 2, 2005
47 EGOS DENTRO DO EU
Mamãe falou que eu iria casar com um músico ou um professor. Mas eu não quero casar. E se ele roubar o que eu não vivi? Se trespassar o olhar, qualquer penetração além do tempo delimitado por dois ou três sinais é desnecessária. Se eu for capaz de comer o que lhe é intelectual, posso fingir que não sou inteligente? Posso fingir que não sou inteligente para comer o que lhe é intelectual. ![]() Maio 23, 2005
JUVENIL
Um dia me ensinaram um nome que dava forma para a palavra. Mas esse nome não tinha nome. Era um olhinho de bola de gude quando sorri porque viu felicidade no chocolate. O arrependimento da virgem hipócrita pela virgindade que ela não cedeu. A dor da avó quando viu o netinho raspando o dedo mindinho e agora está cuidando dele. A raiva da chuva que cai mas não me molha. O mundo que roda e não tem razão. Eu, que não tenho razão. O pai que espreguiça e olha a mãe dormindo depois da noite em claro dando o peito pro bebê. O sol que chega e abre o sorriso que esquenta o rosto da namorada. A velha que passou mais da metade da vida só. A escolha da velha. A velha, que é a sua avó.
Um dia eu li um livro. Eu li dois livros. Eu li poucos livros. Um dia eu viajei de avião. Uma vez eu conheci muitos lugares. Algumas outras, não. Um dia eu permiti não me fazer entender. Mas tentar ver se naquela mão quente que queria morder meu rosto frio havia explicação. Um sorriso que sorriu de mim. Um pensamento que pensou que podia ter sido diferente. Um barbeiro que abandonou a filha. E hoje vive infeliz. Um dia eu era menina. Um dia eu era mulher. Um dia eu já fui homem. Um dia eu fui rajá. Eu que vivi na Índia. Eu que gosto de Roma. Eu, que fui pro Cabo, mas quis sair de lá. Um dia eu aprendi um nome de palavra para explicar. Mas o nome que aprendi não tinha nome e era o suspiro do lembrar. O beijo que um dia ele provou mas não teve como dominar. A saia que do corpo dela rasgou. A vontade de ter sido alguém diferente. O sol que um dia não quis levantar. Um dia eu perdi tempo pensando um pouco. Um dia me peguei pensando muito. Um dia eu resolvi juntar metalinguagem ao molho da forma. Fiz bolo sem precisar de acentuação. A fôrma tinha forma de palavras d-e-l-i-c-a-d-a-m-e-n-t-e repousadas em duas colheres de sopa de açúcar. E uma xícara de chá. Eu poderia ter colocado uma colher de sobremesa de sal. Mas nem tudo o que se segue à risca é o que vai fazer lambuzar o lábio da criança. Alguns segundos de desperdício de pensamento sobre as razões e eu já não encontro o porquê fazemos como fazemos. Porque é tão fácil entender o que é padrão. E inseguro jogar-se onde não precisa haver lógica. E ainda assim a gente insiste no não. Um dia Dalí disse "Cuidado! Eu trago o surrealismo!". Um dia eu amei Dalí. Um dia eu quis ser Dalí. Um dia eu quis comer e digerir em minha alma tudo o que era novo e tudo o que deixaria a minha existência menos pequena. Um dia eu quis não ver que a palavra tosca - assim, feminina mesmo -, simbolizava a essência de pessoas que eu sei que existem. Eu quis não ter nojo da ignorância por opção. Eu quis não repudiar a imagem daqueles que dizem ter lido o que não leram. Eu quis não me preocupar que, a tão poucos passos, o ódio é difícil de não ser sentido. Eu quis sublimar e ver palavras. Encontrar o nome. Um dia não me ensinaram o nome. E eu também não quis aprender. Mas eu continuei vendo olhos de bola de gude na minha inspiração. Chocolate e melancolia. Com espasmos de felicidade burra e, meu deus, tão plena. Continuei vendo o divino onde o deus tinha morrido. E continuei não querendo fazer razão. Queria ver o que pulsava no outro. Porque meu mundo se faz de tão pouco. Porque, sim, sim, eu sou tão pequena. Como todos nós somos. E de universo montado em cima de universo, cheio de meridiano e transversal, é que se faz a minha perspectiva que não tem nome. Eu queria régua e esquadro pra lembrar como a tia me ensinava a ser eu. Mesmo que fosse um eu tão roubado do outro. E pequena, e cada vez menor, encontrando o que as palavras não podiam dizer. Nem nunca dirão. Vendo que na negação existe sempre uma afirmação. Que na música mora a fonte incessante do querer mais bruto e sensível. Um dia eu vi um nome. E senti nojo. E senti piedade. E não senti nada. Eu sentei para escrever. Maio 19, 2005
AVOLEZA
Se de um lado estreito existe a possibilidade de viver, do outro fica a idéia de que a escravidão é a bainha de uma saia bem tecida. Rodada, delineada em corpos que flutuam sobre olhares minuciosos, ela não permite que se abram as pernas. Repousam, então, catatônicas. Quase em estado de cãibra, não fosse a histeria. Conhecendo a possibilidade de realizar o que era desejo, a necessidade das pernas aumentarem o grau que as separam é quase sufocante. Sempre na iminência de algo, sempre no anseio do próximo devir. Se não houvesse a prisão com grades que intercalam bem e mal, talvez o vir a ser seriam as pernas sorridentes, afastadas e sem cãibras. Se a felicidade não fosse penalizada como um prêmio para o bom comportamento, não haveria a razão que impele esse respeito medíocre ao medo. Ai, quantos vazios passam pelos ventos que ventam entre as pernas. E há tanta poeira que os olhos não vêem. Quando eu era jovem e tinha minha máquina de costurar, eu fazia as roupas para minhas irmãs. A do meio ficou grávida aos 16 anos e a mãe quase morreu. Mas foi o desgosto que começou a corroer a bainha de seu vestido verde de matrona. Minha irmã teve que viajar, foi pra Minas. Lá, se casou com o moço bonito que tinha plantado nela o sal e o azedo da realidade. Ela tinha piedade, e não deixou que suas pernas ficassem fracas diante da viagem, do desgosto da mãe. Eu ainda não sei de onde ela tirou a idéia que um dia teria perdão. Mas foi assim que viveu. Buscando desculpa. Buscando dar o peito e ensinar que era doce o que escorria dela. Costumava apoiar as pernas num banquinho marrom de madeira e descansar qualquer histeria que às vezes batia. Ah, mas ela não sabia o que era histeria. Ela só sentia um nervoso junto com um medo que, de vez em quando, fazia ela sentir calor.
De um ano pro outro, ela começou a costurar as próprias roupas. A mãe já começava a sentir saudade, mas não admitia que alguma filha usasse saia sem contar pra ela. Ter vontade era coisa pra caipira ou pra quem não tinha educação. A gente até morou na roça mas não tinha nascido lá. Magina se a mãe ia criar filha pra depois ter que repetir o pai nosso. Eu casei cedo e um dia enviuvei. Morei perto da mãe até não conseguir mais olhar as crianças brincando na rua. Dentro de mim tinha alguém que falava outra língua. Alguém que não me deixava mais vestir do jeito que eu queria. Eu não entendia de onde vinha aquele muro que escondia o sol. Pouco depois do marido, foi a vez da mãe ir passear. Às vezes eu penso que eles devem comentar sobre a gente. Confesso que sinto um medo danado. Mas tenho certeza que minha irmã do meio sente muito mais. Outro dia, o marido dela também foi embora. Mas é tanta preocupação que a gente acaba nem ficando tão triste. A coisa mais importante é ver os filhos da gente sentindo a falta que a gente faz. A gente não sentiu tanto a falta da mãe porque já tinha família. Não sentiu falta dos maridos porque já sabia costurar. Mas os filhos que a gente botou no mundo não sabem direito como fazer parar as cãibras que de vez em quando dá. Então, vão deixando que a dor imobilize a vontade de trabalhar. E o trabalho é o que faz a gente esquecer de tudo. E eu esqueci de ensinar minhas filhas a costurar. Vira e mexe tem teia de aranha brincando na sujeira onde elas moram. Eu sinto tristeza quando vejo aquela bagunça porque desse jeito nenhuma delas vai conseguir casar. Elas não usam saia, não sabem agradar. E eu só fico olhando daqui. Minha irmã do meio veio morar comigo e não trouxe a máquina de costura porque não ia caber. Eu fico torcendo por cada uma delas. Minhas filhas, minha irmã e a máquina de costurar. Se tem uma coisa triste é que eu não sou mais jovem, e não tem mais a mãe pra conversar. Mas eu acabo esquecendo disso quando fico por aqui, descansando as minhas pernas bambas, assistindo contente a poeira dos cantos ou guardando os tecidos pra um dia voltar a costurar. Maio 16, 2005
TERCEIRO LADO DA MOEDA
E se eu tomar o ônibus e parar com essa choradeira desnecessária? Vou deixar mais vazio o que não existe. Ah, que o abismo sempre pode ser maior e indolor. E não é porque não causa dor que é melhor. Não é porque não tem lágrima que é menos drama. É feio, é elefante com cara de homem inocente e tão feio. É tão sem sentir o que se sente. É tão fim da linha que ainda tem uma eternidade. Se fosse branco teria cor. Mas é pálido e bege. É uma grande gengiva escorrendo sangue e enojando o nada ser. É sem paradigma ditando o que não seguir. É sem endorfina ou serotonina de toda uma tristeza química provocada pela falta de transcendência. Pela não existência num abismo que é tão bege. Vai, que eu quero fumar o seu corpo inteiro até conseguir me integrar novamente nesse mundo tão desnecessário. Vai, que eu preciso de dinheiro e não tem mais fome. Porque de ego mais todo o brilho lampejante nas mãos tão feias e tão pedintes e eu vou te desapontar quase agora, cuidado.
Estou atrasada. E se eu tomar toda a forma do que te desagrada em nome do que eu represento? Me disseram que a vida não era mais do que a ilusão do sonho de alguém que está me sonhando. Agora, agora. Agora, agora. E continua sonhando. Acorda. Tem um besouro grande e cinza escamoso querendo entrar. Agora. Vai, agora. Eu não quero continuar. Interpretar o sonho que me sonha. Agora, agora. Fora da cabeça que não ouve a música nem sabe poesia. Vai, que estou quase me apropriando e falando de palavras que não lembram que sangram, e não reclamam, mas dizem em eco que a eternidade é demasiado enfadonha para mim. Eu sou os ondes. Os lugares que eu olho e não recebo chão. Estou cansada. Meus filhos e meus frutos acabaram. Eu só queria um toque que me fizesse acordar. Agora, agora, agora. Eu queria olhar nos meus olhos. Eu queria entender o belo. O bom. O que me engana. Eu quero o que me engana. Eu quero vozes sem imagens. Eu quero assombração. Eu quero um oi que me ajude a falar o que não acontece. Eu quero chiclete, eu quero parar de machucar. Eu quero um eu melhor. Eu quero que o besouro não me assuste. Eu quero pegar o ônibus e trocar a carcaça. Eu quero atormentar quem ousar gostar de mim. Maio 11, 2005
RANCHARIA
Tinha dias em que os calos da mão direita eram o firmamento. Na roça era assim. O azul só penetrava quando toda a dor se fazia aparecer, sô. Tinha família inteira que nascia e chorava na dor. E o machado que cortava o sol fazia da plantação algo mais que valioso. Era o sustento e era o mastro. O corpo e a luz da gente da roça, sô. Se do trigo o pão saía amarelo, o amido corroia o sangue cheio de ódios velados. Mas eram ódios inocentes, sô, porque era o querer bem que fazia da lida o elo e o espírito do que existia. Tantos tijolos que enfeitavam a casa cheia de camas e irmãos. Tinha muito mais amor doído que rancor infantil.
Eu ainda não sei se o pai cantava porque se importava com o som ou se por querer esquecer tanto silêncio. A gente da terra precisava aprender a entender o que o silêncio dele ensinava. De vez em quando, até ardia um pouco o calor que o sol dourava. Mas a gente continuava na lida e caminhava. Cortar e refazer o que não teria para comer naqueles dias. Não é de dor que a gente chorava. Mas por saber que da terra vinha o suor que a gente não merecia. Eu queria saber ser forte igual ao pai. Ele entendia a vida. Eu e as meninas ainda tentávamos olhar o que não existia de vida. Mas ficava difícil quando, por vezes, a vida da gente explodia. Insistia nessa coisa que a gente não sabia explicar, mas sentia. Eu tinha vergonha era da cidade, sô. Eu tinha medo porque a casa da gente tinha tijolinhos e o pai acendia fogueira quando fazia frio. Na cidade tudo podia ser diferente. Mas eu desconfio que nunca existiu nada dessa tal cidade. Eu falei pras meninas que isso devia era ser invenção daquele moço que tinha sol dentro do olhar. Igualzinho ao sol da roça. Que roça dentro da gente. Eu vejo os calos da mão direita. A outra mão sempre foi boba e mais bonita. Até hoje eu não entendo muitas coisas. Eu não enxergo mais o silêncio do pai. Eu fico esperando o sol levantar junto com a noite que vai dormindo tranqüila pra lá do campo. Aprendi a fazer pão e os meninos que não são meus gostam de comer quando ainda está quentinho. Tinha gente que nascia e morria na dor. A gente só vive. Não se sabe onde. Nem se vai terminar. Mas a gente vive. Sô.
TREMELUZIR
Tanto e mais que depois não havia o que pensar. Cansaço e felicidade. Necessidade da voz e toma, leva e devolve depois. Quanto tempo você vai passar fora? Eu não sabia e precisava te dar um beijo de adeus antes da grande jornada. Eu, que pensei ir antes, não suportei a notícia. Quando os sonhos diziam que as asas permitiriam todos os nossos vôos juntos por sobre aquele castelo tão bonito castelo que era aquele, eu acreditei.
Era uma música que eu precisava para inspirar o que a minha memória trazia junto com os olhos que me beberam de vontade naquele dia de sol que já anoitecia azulado. Eu precisava ouvir novamente a seqüência repetida dezessete vezes dezessete. Sem medo, sem vírgula ou paráfrase freando a minha razão. Porque quando o tempo permanece parado e não voa junto com os sonhos, meus olhos tratam de inventar casinhas de histórias bonitas. Que são porque desejam. E basta. E se, depois de tudo isso, um mundo inteiro ainda restar para ser vivido? Sua partida já urgiu. Mas não ter medo é mais do que ser feliz. É se saber escravo da casa e, ainda, tão livre por causa do sorriso único que sorri e pode também machucar. Tremeluzir que só poderia partir daqueles lábios, tão bonitos os lábios que olhavam para mim dizendo sobre tanta vida que queria acontecer. Dentro da casinha onde a livre associação e a inspiração ainda fazem chocolate. E se eu não quiser? E se eu entender? Não precisa de resposta quando a vida pulsa na pele que gosta e goza e vive e chora. Mas quanto tempo você vai passar lá fora sem me dizer a palavra que eu queria ouvir? Não importa. Sempre que eu souber que um pensamento pensou naquela vida, cítaras serão anfitriãs do nosso mundo. (she is so young and old, i look at her and i see the beauty of the light of music, the voices talking somewhere in the house) E se a gente não se importar mais e cantar do jeito que sabemos? E se, a partir de então, a concordância do nosso mundo for construída com os tijolos das nossas boas intenções? Se o teu calor encostar de felicidade no meu calor, eu sei que as minhas certezas viajarão junto contigo. Meu riso não será tão triste como quando você não está. Um pedaço de poesia ainda me fará dormir vendo aquele quadro do Dalí. E quando eu sentir o sono aparecer, do teu corpo o meu corpo vai ser ocupado. E para sempre é o tempo em que eu vou te olhar. Toma, leva e não precisa devolver nem mandar. Fotografia, videoclipe, cartão postal. Faz tanto tempo e a felicidade já se cansou. - Current Soundtrack - You are the everything - REM Maio 9, 2005
DIÁRIO
E se os sorrisos não voltarem com o sol? Eu preciso de mais energia. Foram tantas cantorias. E eu, contabilizando os ganhos... Porque é fácil viver com horizontes de possibilidades grandiosas. Elas realmente acontecerão, mas ainda não chegou o trem. E eu vou e vou mesmo assim. De primeira pessoa. De cabeça bem levantada fazendo com que muitos abaixem a imaginação. Baixem a guarda. Guardam volumes enquanto eu brinco de palavras cruzadas. Signos que codificam a realidade. Que é minha. Ah! Minha realidade. Azul. Abraço para ti. Abraço-te. De firme. E em meu firmamento, onde as coisas e as coisas das pessoas dançam. Faltar com a linearidade não é questão de perspectiva. É que eu respeito demais. E sinto uma fome que me corrói quase o pescoço. E muda o disco. Cansei. Mas salvas. Viva a vida. Mesmo se o sol não voltar. Pois os sorrisos voltarão. Indeléveis que só eles. Todo um futuro de presente. Fim da impossibilidade. Assassinando a resignação. Maio 3, 2005
VAGAS DO PASSADO
Se o marido a deixasse, se o amante a amasse. Egofagia para viver. Sem muito luxo ou fama. Só o prazer sem felicidade. O trabalho para enobrecer. O gozo. Havia uma árvore cheia de maçãs. E um vermelho de envergonhar. Precisava morrer um pouco para entender o que diziam as profecias. E queria se libertar. É fácil fazer rimas com o verbo. Ela tinha um grande verbo dentro de si. E quando o vermelho manchava a sua alvorada, gemia sozinha. Ajustar os graves e os agudos não era tarefa para ela. Que gostava de ouvir como ninguém. Mas a incomodava a polifonia de tons tão cor de rosa inebriante.
Mordeu a tangerina. Chupou o sumo. Tinha sido santa certa feita. Tinha até pedestal para ela e um manto branco escondendo as maçãs eriçadas e, alguns diziam, rijas. Olhava cheia de calor mostrando todo o branco da sua indiferença. Mas dentro tinha mais que verbo. Tinha uma explosão de halo crispando sua memória, lembrando. Os anos voavam sobre suas dores de saudade. E ela queria contar. A perversão dos seus olhos secos foi percebida por outros olhos doutores que quiseram domesticá-la. Ao ensinar pela dor, os olhos doutores roubavam com sacanagem gentil a meninice que escrevia conto de fadas. Pois o que perverte inverte o desejo. E ensina a doer de pulsar. Se o marido a amasse, se o amante a beijasse. Tudo o que nada acontecia. Era caminho para aprender a aprender. Era sem luxo e sem fama, mas árvores de crueldade e esquecimento. Que vira e mexe teimavam em lembrar que o cruel também existe quando geme. Que a saudade insiste quando goza. Que o pensamento vacila quando o passado encolhe o tempo do real onde o imaginário ainda dança. Abril 29, 2005
FELICIDADE
Hoje eu fechei a janela pois a luz me causava dor. Tenho preguiça do lixo. Odeio o que não quer dizer. Faroletes de uma vida sonsa. Há muitos infernos alheios que eu não quero provar. Não venha querer me contaminar com o teu abismo. Por que me chama? Que tal esquecer da minha existência? Ah, quanta virulência. Pára de fingir. Eu quero do fundo mais sangue. Eu quero da vida mais viva. Prefiro me retirar. Não agüento essa hipocrisia. Essa máscara rotunda que vislumbra em mim qualquer coisa. Tua falta do que fazer. Falseia personalidade. Projeta um eu de mim que não existe. Pára de me tratar além. Eu nunca fui rainha. Respeita meu espaço que existe no meu silêncio. Não sou justificativa. Para saber apreciar o profundo de um carinho, sente a falta do que me escorreu em orvalho um dia. O que acontecia em festa e era feliz. O que sorria inocente antes de bater na tua testa fétida por idéias ocas. Toca o meu instrumento. Lembra como é me fazer sorrir a conta-gotas. E então escolha no armário a grandeza mais bonita, vista, e venha contar pra mim. Abril 26, 2005
A TAL DA CORRENTE LITERÁRIA
Fui acorrentada por um -- amigo -- e confesso que torci o bico ao perceber do que se tratava. Mas ao lê-lo, achei interessante. Pois é bacana ver os gostos de quem possui textos que admiramos, ou no limite, gostamos de ler. Havia uma dezena de pessoas a quem eu gostaria de enviar isso aqui, só para saber sobre o que elas gostam. Mas, enfim, fica aí a indicação.
1- Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro querias ser? Não entendi se devo querer ser um livro para ser queimado ou se para ser imortalizado. Sendo assim, escolho a alternativa que mais me apetece. Queria ser "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres" da Clarice Lispector. É o paradoxo do paradoxo que remete à normalidade. É o complexo do que é simples e a gente não enxerga. É a organização do caos. A metafísica por lábios silenciosos e tão bonitos, medrosos e tão corajosos. Não obedece a padrões, a personagem principal é tão confusa e tão madura. É a poesia que é prosa. É o tudo que se tem dentro. É a leitura que não pode ser feita sem estar em sintonia com o pensamento do autor porque, caso contrário, corre-se o risco de perder alguma vírgula e destoar toda a respiração. Independente do momento que eu esteja passando sei que posso lê-lo e me encontrar ali. "É que não quero ser platônica em relação a mim mesma. Sou profundamente derrotada pelo mundo em que vivo. Separei-me só por uns tempos por causa da minha derrota e por sentir que os outros também eram derrotados. Então fechei-me numa individualização que se eu não tomasse cuidado poderia se transformar em solidão histérica ou contemplativa." 2. Já alguma vez ficaste apanhadinho por um personagem de ficção? Por vários. Mas isso não é resposta. Na verdade, eu queria saber qual a definição para "apanhadinho". Mas, vamos lá. Um dos personagens que mais me deixou besta e consumida foi o Percival, À Mão Esquerda - Fausto Wolff. É a vontade de ser ele, de bater nele, de brigar com ele, de viver com ele. 3. Qual foi o último livro que compraste? As Cores da Infâmia, do Albert Cossery - único livro publicado em português desse autor egípcio que vale muito a pena - e Ecce Homo, do Nietszche. 4. Que livros estás a ler? O Complexo de Portnoy, Philip Roth 5. Quais os cinco livros que levarias para uma ilha deserta? Sacanagem, mas vamos lá: 1 - Amor nos Tempos do Cólera - Gabriel García Márquez 2 - Tio Vania - Anton Tchekhov 3 - Esperando Godot - Samuel Beckett 4 - Dom Casmurro - Machado de Assis 5 - Ficções do Interlúdio - Fernando Pessoa com todos os heterônimos. 6. A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e por quê? * ao querido Ferdinand Vives, que tem um dos textos mais limpos, diretos, criativos, inteligentes e irônicos que conheço. Sorry Periferia , mas quando ele virar colunista, sou uma das pessoas que engrossarão o coro e que o lerão assiduamente, ansiosamente. * à Noêmia que, quando deixa a alma correr livre pela sua Margem da Palavra, escorre tangenciando Gabriel García Márquez. * ao amigo do Cartaz Amarelo, refúgio na literatura de um moço letrado no ofício jornalístico. Não imaginava que havia tanto lirismo na prosa desse rapaz. * e, claro, faço referência ao Dani e a sua Teoria do Conceito, que me fez responder a uma corrente, coisa que definitivamente não tenho o costume, mas por ele, vale a pena. |